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A Pé Descalça

Chega de Reclamar

Esta semana saiu mais um artigo, desta vez no P3, sobre a pobre da minha geração (leia-se com sarcasmo por favor): somos uns coitadinhos, vivemos na miséria, roubam-nos tudo e agora até os sonhos.

 

Quando vou aos comentários destas notícias vejo sempre uma mescla de coisas: os típicos velhos do Restelo indignados, adultos e jovens com alguma pena de esta geração estar assim, mas principalmente muita juventude a subscrever as palavras destes jornalistas/opinadores profissionais.

 

Pois bem. Eu já engoli muitos sapos a ler estas notícias e não consigo ficar mais calada. Esta notícia então em particular deixou-me completamente alterada. Como é que agora somos uma geração que já nem se digna a sonhar?

 

Acho que neste país vive-se um grande problema. Achamos que temos direito a muita coisa sem sempre termos que nos esforçar muito para ter esses direitos. Trabalhar é um direito, sim. Estudar e pagar por esses estudos é um esforço, sim, e para alguns mais que outros. Mas quem acha que só por ter licenciatura ou mestrado agora tem direito a um emprego cinco estrelas, ilude-se. Infelizmente, o mundo não funciona assim. E mais importante que isso malta: o mundo nunca funcionou assim.

 

Recuemos um pouco no tempo. É 1991. Os meus pais casaram-se há pouco mais de um ano. Eu estou para nascer a qualquer momento. O meu pai, que terminara o curso de Direito em julho desse ano, anda à procura de emprego desesperadamente. Uma semana antes de eu nascer, finalmente consegue arranjar qualquer coisa: vai trabalhar para o banco Nova Rede (quem se lembra ainda?) a arquivar ficheiros.

 

Hm. Será que este era o emprego de sonho do meu pai? Claro que não. Será que ele ficou indignado ou com vergonha por ter este emprego apesar de ser licenciado? Claro que não. Será que continuou a sonhar com um emprego melhor? Claro que sim. E assim foi trabalhando para ser o melhor e subindo na sua carreira profissional, evidenciando que não só tinha o belo do canudo como tinha as competências necessárias para assumir cargos de maior responsabilidade.

 

Hoje em dia, passa-se o mesmo. Licenciados trabalham em call centers, arranjam estágios do IEFP que pagam uma miséria, trabalham em part-times enquanto não encontram nada mais estável. E aqui eu incluo-me porque estou nesta situação. Só que a minha geração acha que isto é absolutamente inaceitável. E aí discordamos profundamente, malta.

 

Eu tenho uma visão muito liberal da minha vida enquanto cidadã. O Estado deve-me pouco (porque eu não tenho qualquer tipo de necessidade especial - i.e. deficiência, estatuto de imigrante, idade avançada, vulnerabilidade financeira, etc.) e sou eu que tenho que me esforçar para conquistar o que eu quero. Por isso, hoje em dia, eu tenho três empregos ao mesmo tempo. Eu trabalho 6 dias por semana (porque me obriguei a pelo menos tirar o domingo para descansar), 10 a 12 horas por dia. E ninguém me ouve a queixar. Porque eu não tenho razão para tal.

 

Gostava de receber mais? Claro que gostava. Gostava de trabalhar menos? Gostava. Um dia terei isso tudo! Mas agora, com 23 anos, uma licenciatura, um mestrado e menos de um ano de experiência profissional, que mais é que eu podia esperar?

 

Um dia, terei o meu emprego de cinco estrelas. Até lá, continuo a trabalhar e, mais importante que isso, continuo a sonhar.

 

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