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A Pé Descalça

Como É: Fazer Voluntariado na Índia

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Como já mencionei aqui, no verão de 2011 passei 6 semanas a fazer voluntariado na Índia. Decidi ir até à Índia porque era dos países (dentro dos que podia escolher) que achei que mais me chocaria e impressionaria. Achei que se era para fazer voluntariado lá fora (porque em Portugal sempre tinha feito) então deveria ir para o sítio mais diferente de Portugal possível. E assim cheguei a Hyderabad em Julho de 2011.

 

Toda a experiência foi bastante intensa e, a pedido de uma das leitoras do blog, aqui ficam as respostas às perguntas mais frequentes que me fazem:

 

Como é que fui? Consegui esta experiência espetacular de voluntariado através da AIESEC, uma organização internacional composta por estudantes que existe precisamente para arranjar estágios ou oportunidades de voluntariado para outros estudantes universitários no mundo inteiro. Sinceramente, não recomendo que vão através da AIESEC se estão a pensar em procurar uma experiência destas. Cada delegação local da AIESEC é gerida de maneira diferente e por isso o tipo de condições varia muito de um sítio para outro. Para além disso, esta organização é gerida por estudantes universitários voluntários (ou seja, não remunerados) por isso nem sempre a motivação para trabalhar é a maior. Conheço pessoas que tiveram experiências fantásticas através da AIESEC mas isto não é garantido e por isso não recomendo que vão através desta organização.

 

Quais eram as condições? Supostamente (muito supostamente!) eu fui enviada para Hyderabad para ser recebida pela AIESEC de lá que me assegurava alojamento, refeições e transportes para a escola onde ia estar a trabalhar. A casa que me arranjaram só tinha quatro camas (não tinha casa-de-banho, água, cozinha, e muito menos algo que se parecesse com uma sala de estar/jantar), e as refeições e o transporte fui eu que paguei sempre. Passado uma semana na tal casa sem nada (sem tomar banho e, perdoem-me o pormenor mas, a fazer xixi para uma garrafa de água), tive a sorte (sim! a sorte!) de ter uma colega de faculdade que também estava na mesma cidade que eu mas num apartamento com condições normais. Assim que pude, apanhei um taxi e passei a morar com ela (o que chateou imenso os rapazitos da AIESEC mas eles que vão viver sem casa-de-banho e depois falamos). Neste novo apartamento até televisão tínhamos mas a certa altura chegámos a ser... 20 pessoas num apartamento onde no máximo dos máximos viviam bem ("bem") umas 7 pessoas. Foi... interessante!

 

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O que é que fiz? Felizmente, as minhas 6 semanas na Índia não se resumiram a dramas da AIESEC! Estive este tempo todo a trabalhar numa escola criada por uma associação sem fins lucrativos localizada num bairro de lata em Hyderabad. Dava aulas de inglês a crianças dos 10 aos 14 anos e dava aulas de substituição quando era preciso. Também acabei por dar apoio ao diretor da escola e conheci muitas das empresas que prestam apoio à organização. Podem conhecer melhor a escola e organização aqui. Para além de trabalhar, também aproveitei muitos fins-de-semana para viajar, claro! Fui a sítios de que nunca tinha ouvido falar (tipo Bubaneshwar) e a outros que nunca pensei ter a oportunidade de visitar um dia (tipo o Taj Mahal) e aproveitei essa parte ao máximo.

 

Quanto é que custou? Ao todo, as 6 semanas custaram cerca de €2.000 (talvez um pouco mais). Isso inclui vôo (que ronda os €1.000), refeições, transporte, viagens pela Índia, telemóvel, e... todos os pequenos extras de uma vida a descobrir um país novo. Na altura, 1 euro valia cerca de 60 rupias por isso a maior parte das coisas era relativamente barata e muitas vezes as entradas nos museus eram 1 rupia (preço especial de estudante), por exemplo, portanto aquilo em que gastei mais dinheiro foi transportes e souvenirs.

 

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Do que é que gostei? As 6 semanas foram atribuladas e admito que chorei nas primeiras duas noites em que lá estive, mas houve coisas de que gostei também claro! Adorei principalmente as crianças com quem trabalhei e os funcionários da organização. O diretor especialmente era uma pessoa impecável que criou esta associação de raíz e se dedica a ela praticamente a tempo inteiro apesar de ter um emprego também. Adorei as pessoas que fui conhecendo nas viagens que fiz pela Índia. Adorei a comida (apesar de no final ter apanhado uma gastrite terrível que me fez perder uns 5kg). Adorei aprender a comer com as mãos! E adorei o desafio que foi.

 

Do que é que não gostei? Houve muitas coisas que correram mal, mas principalmente aquilo de que não gostei foi mesmo a atitude das pessoas da AIESEC de Hyderabad. Enganaram-nos imensas vezes e só souberam causar mais problemas numa experiência que só por si não é nada fácil. Mas, para além disso, a única coisa de que não gostei mesmo foi o choque cultural (especialmente na perspetiva de uma mulher). Sou muito apologista da relatividade cultural e que devemos respeitar a maneira de ser diferente de pessoas e culturas diferentes, mas isso é muito (muito) difícil de engolir quando somos mulheres a viver num país extremamente conservador. Os olhares constantes, os piropos, as motas a atravessarem-se à nossa frente e pararem no passeio para os homens ficarem a olhar, enfim.. Tudo isso foi muito complicado! Não gostei apenas porque, feminista que sou, estas coisas mexem comigo a um nível até mais ideológico do que pessoal.

 

O que é que aprendi? Muita gente me pergunta se eu gostei da minha experiência na Índia e eu sinceramente não sei responder. Acho que a pergunta mais importante não é essa. O objetivo da minha ida à Índia era desafiar-me e isso consegui fazer sem dúvida. Desde aprender a viver uma semana sem casa-de-banho (quem sabe, este poderá ser um skill útil para o futuro!), a saber lidar com (leia-se cagar para) o machismo extremo, a aprender sobre o que é mesmo a probreza, a redescobrir a minha veia criativa a dar projetos interessantes para os meus meninos, a conhecer lugares e uma cultura completamente diferente... Toda esta experiência ensinou-me muito mais do que eu alguma vez esperava. E recomendo vivamente a todos que um dia experimentem algo do género: atirem-se de cabeça para um coisa que acham que não vão gostar muito. O resultado é surpreendente.

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