Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Pé Descalça

Viajar pela Turquia de Cadeira de Rodas

O ano passado na altura da Páscoa fizemos uma viagem de família à Turquia. Eu, as minhas duas irmãs e os meus pais. Tínhamos o itinerário todo planeado para a nossa semana fora quando, uns dias antes de termos que apanhar o avião, a minha irmã mais nova (17 anos na altura) magoou-se no pé. Não achámos que fosse nada de especial mas o inchaço no tornozelo nunca mais baixava e no próprio dia em que íamos apanhar o avião fomos de urgência ao hospital e, depois de uns exames, confirmou-se que era uma entorce.

 

Não íamos cancelar tudo por isso a nossa alternativa foi levar umas muletas e eventualmente alugar uma cadeira de rodas quando chegássemos à Turquia. Estávamos prontos para encontrar uma série de problemas, empates e chatices mas o que aconteceu foi completamente diferente.DSC00914.JPG

A bondade e o respeito que vimos por parte do povo turco em receber e adaptar-se à condição especial da minha irmã surpreendeu-nos completamente. As situações caricatas e os exemplos de acolhimento excecional foram vários, mas aqui ficam os mais memoráveis:

 

O staff do aeroporto está pronto para ajudar. Tanto o aeroporto de Lisboa como o de Istanbul estão equipados para transportar pessoas de cadeira de rodas até às portas, pela fronteira dos vistos, e a qualquer outro sítio que seja necessário. Com cadeiras de rodas super modernas e um staff do aeroporto a conduzi-la, estávamos mais que bem servidas e em conforto. O único problema que encontrámos foi nas filas prioritárias: normalmente só permitiam um acompanhante e nós como estávamos a viajar em família não nos queríamos separar. Felizmente, o bom português sabe refilar e os turcos desistiram de insistir.

 

O nosso hotel tinha cadeiras de rodas disponíveis. Apesar de não termos feito qualquer reserva de cadeira de rodas, o nosso hotel em Istanbul (o Best Western Citadel Hotel) tinha cadeiras de rodas disponíveis e deixou-nos alugar uma sem qualquer tipo de custo extra. Pudemos levar a minha irmã a todo o lado com a cadeira e entregámo-la no final da nossa estadia. Claro que não era uma cadeira de alta qualidade e os pneus das rodas precisavam de ser enchidos, mas ficámos eternamente agradecidos porque teria sido impossível fazer a viagem sem ela.

DSC00909.JPG

A população fica muito tocada. Especialmente por a minha irmã ser jovem (e ter ar de ser ainda mais nova), houve muitas pessoas que nos abordavam na rua para nos dizerem que tinham imensa pena pela minha irmã. Claro que a pena não é um sentimento bonito e eu normalmente sou contra esse tipo de demonstrações, mas neste caso criou situações muito engraçadas. Um vendedor de chá em frente à mesquita de Aya Sofia quando viu a minha irmã veio ter connosco e ofereceu-lhe um copo de chá de graça. A minha irmã recusou educadamente (até porque detesta chá) o que levou o homem a dizer "No, no. Is okay. I am friend, you understand? Free tea for you. Very sad.". Virou-se para os meus pais e começou a tentar explicar-lhes que oferecia chá de graça a todos nós porque éramos as três muito bonitas e a minha irmã, coitada, tão nova e de cadeira de rodas. Foi amoroso! A minha irmã lá teve que aceitar o chá e sorrir. De outra vez, uma senhora que não falava inglês veio ter com a minha irmã. Tinha um coelhinho no colo que lhe mostrou para ela lhe dar umas festinhas. A minha irmã delirou e sorriu imenso enquanto mimava o coelho mas a senhora, talvez porque a minha irmã estava tão feliz, ficou super comovida, começou a chorar e foi-se embora a correr.

 

Há filas prioritárias em todo o lado. E descontos! Em praticamente todos os monumentos que fomos visitar, havia uma fila prioritária para pessoas com deficiência motora. Mais que isso, muitas vezes punhamo-nos na fila normal e os funcionários dos monumentos vinham-nos buscar! Lembro-me também que houve um sítio em que a pessoa de cadeira de rodas e um acompanhante tinham direito a entrada gratuita. Algo de que não estávamos mesmo nada à espera!

 

Estão todos sempre prontos para ajudar. Quando fomos para a Capadócia, ficámos no Travellers Cave Hotel, um hotel que (pelo nome percebe-se) foi construído aproveitando as cavernas antigas e típicas da zona. O acesso dentro do hotel era difícil e nós tínhamos marcado um quarto no piso -2. Quando chegámos, pedimos se era possível mudar para um quarto no piso 0 para que a minha irmã não tivesse que subir e descer escadinhas estreitas. O dono do hotel foi super prestável e alterou-nos logo os quartos, sem levantar qualquer problema ou fazer frete e ficámos num quarto logo à entrada do hotel que dava para um jardim muito giro. Também na Capadócia, quando fomos andar de balão de ar quente, o acesso para o cesto do balão era complicado. Explicámos a situação da minha irmã ao piloto e ele chamou logo ajudantes para pegarem nela ao colo e foi a primeira pessoa a entrar e sair.

DSC01124.JPG

A maneira como fomos recebidos tanto em Istanbul como na Capadócia foi simplesmente excecional. Claro que para uma pessoa de cadeira de rodas, haviam ainda alguns problemas: as ruas não têm um piso fácil para a maior parte das cadeiras e as multidões (especialmente em Istanbul) podem ser difíceis de navegar. Nem todos os estabelecimentos têm um acesso fácil (especialmente lojas em Istanbul e, por exemplo, o Goreme Open Air Museum) por isso ainda há aspetos a melhorar. Mas a atitude dos turcos e de todas as pessoas com quem tivemos contacto foi surpreendente e fez-nos pensar se realmente em Portugal teríamos tido a mesma experiência...